De SaaS para OaaS: vender o resultado, não a ferramenta

Espero que você goste desse conteúdo. Mais conteúdo sobre esse tema visite meu canal no YouTube, clique aqui Autor: James Moro

Durante vinte anos, o negócio de software funcionou assim: você constrói uma ferramenta, o cliente assina e paga por usuário. Se ele usa bem, o problema dele melhora. Se não usa, a assinatura continua do mesmo tamanho.

Um slide do vídeo de Bruno Picinini resume a virada que muita gente está discutindo em uma linha: de SaaS, “venda a ferramenta”, para OaaS, “entregue o resultado”. Neste artigo, a gente destrincha o que isso quer dizer, quem já está fazendo, onde o modelo quebra e o que muda para quem desenvolve software.

O que é OaaS

OaaS significa Outcomes as a Service, ou “resultados como serviço”. Em vez de vender o acesso a um software para a pessoa fazer o trabalho, você faz o trabalho e cobra pelo resultado entregue: o atendimento resolvido, a reunião marcada, a nota conciliada, o bug corrigido.

Uma observação importante: OaaS ainda não é um termo padronizado. A mesma ideia aparece no mercado com outros nomes, como service-as-software (a expressão da gestora Foundation Capital) e outcome-based pricing, que é a parte da cobrança por resultado. Vale ver o OaaS como a forma curta de falar do conceito.

SaaS e OaaS na prática

SaaSOaaS
O que o cliente compraAcesso a uma ferramentaUm resultado pronto
Quem faz o trabalhoO cliente ou a equipe deleO software com IA, de ponta a ponta
Como se cobraAssinatura, em geral por usuárioPor resultado entregue, ou um modelo híbrido
Quem assume o riscoO cliente: paga mesmo sem resultadoO fornecedor: só ganha se funcionar
Métrica de sucessoUsuários ativos e usoResultados entregues e custo por resultado
Orçamento que disputaO de softwareO de serviços e de salários

A mudança de incentivo é a parte mais interessante. No modelo por assento, o fornecedor ganha mais quando o cliente mantém mais gente logada na ferramenta. No modelo por resultado, ele ganha quando o trabalho deixa de existir. As duas pontas passam a torcer pelo mesmo lado.

Por que isso ficou possível agora

Agentes de IA conseguem ler informações soltas, decidir o próximo passo e executar tarefas inteiras, e não só um pedaço delas. A Foundation Capital descreve isso como a passagem do software as a service para o service-as-software: a IA deixa de ser uma ferramenta que automatiza parte de um trabalho e passa a automatizar o trabalho todo, virando ela mesma o prestador do serviço.

A gestora estima uma oportunidade de US$ 4,6 trilhões nessa mudança. A conta soma cerca de US$ 2,3 trilhões em salários de funções como vendas, marketing, engenharia de software, segurança e RH, e outros US$ 2,3 trilhões gastos em serviços terceirizados de TI e de processos de negócio (este segundo número vem do Gartner). Vale lembrar que é a tese de uma gestora de investimentos, e não um dado medido: use como ordem de grandeza, não como previsão.

Quem já cobra por resultado

  • Intercom (agente Fin): lançou o Fin cobrando US$ 0,99 por resolução, além dos planos por assento. Segundo o SaaStr, a taxa média de resolução do Fin saiu de cerca de 27% no lançamento para algo em torno de 66% a 67% entre milhares de clientes.
  • Sierra: criada no início de 2024 por Bret Taylor e Clay Bavor, nasceu com cobrança por resultado desde o primeiro dia: o cliente paga quando a IA resolve o atendimento. Os valores não são públicos, e cada contrato é negociado.
  • HubSpot: mudou o preço do agente de atendimento de US$ 1,00 por conversa para US$ 0,50 por conversa resolvida. Ou seja, deixou de cobrar pelo esforço e passou a cobrar pelo resultado.

Repare que a Intercom e a HubSpot cobram o resultado em cima de planos existentes. Na prática, o modelo híbrido (assinatura mais resultado) é bem comum, principalmente para empresas que já têm uma base de clientes e um produto estabelecido.

A outra metade do slide: reconstruir mercados que já existem

O slide termina com uma frase direta: reconstruir mercados de serviços gigantes que já existem, usando inteligência artificial. É o lado de quem quer empreender.

A lógica é simples. Em vez de inventar uma categoria nova e convencer o mercado de que ela existe, você escolhe um serviço que as empresas já pagam caro para ter e entrega o mesmo resultado de um jeito mais rápido e mais barato. Alguns sinais de um bom candidato:

  • O resultado é objetivo e verificável: o ticket foi fechado ou não, a reunião foi marcada ou não.
  • O serviço é repetitivo e em grande volume.
  • Os dados de entrada já são digitais.
  • Hoje já se paga por unidade (por atendimento, por documento, por lead).

Alguns mercados para pensar nessa lógica: atendimento ao cliente, cobrança, conciliação financeira, triagem de currículos, qualificação de leads e revisão de documentos. São hipóteses para refletir, e não recomendações de negócio.

Onde o modelo quebra

Cobrar por resultado parece perfeito no papel, mas tem armadilhas:

  1. Definir o “resultado”. O que conta como resolvido? E um caso resolvido pela metade, ou que passou para um humano? Em muitos contratos, a discussão sobre a definição dá mais trabalho do que a discussão sobre o preço.
  2. Custo que cresce com o uso. Diferente do software tradicional, em que o custo de atender mais um cliente é quase zero, serviços feitos por IA têm custo recorrente que sobe junto com o volume. Se você cobra um valor fixo por resultado, a margem depende de quanto custa entregar cada um.
  3. Preço que não escala bem. Em volumes muito altos, pagar por resultado pode sair mais caro para o cliente do que um plano fixo. Por isso, muitos fornecedores combinam os dois modelos.
  4. Atribuição. O modelo funciona melhor quando dá para provar que o resultado veio da IA. Onde o resultado é subjetivo (como “uma boa resposta”), a cobrança vira discussão.
  5. Quando a IA erra, o risco é seu. No OaaS, o fornecedor assume a falha. Isso exige controle de qualidade, métricas e um plano para passar o caso a uma pessoa.
  6. Previsibilidade. Uma fatura variável pode atrasar a decisão de compra em empresas grandes, que gostam de saber o valor do mês.

O que muda para quem desenvolve software

Você não precisa mudar o modelo do seu produto amanhã. Mas dá para começar a pensar como OaaS com cinco perguntas:

  1. Qual resultado o cliente quer de verdade? Não a funcionalidade, e sim o que ele ganha quando tudo dá certo.
  2. Dá para medir esse resultado de forma objetiva? Se você não consegue contar, não consegue cobrar.
  3. Quanto custa entregar uma unidade desse resultado? Some IA, infraestrutura e a revisão humana que for necessária.
  4. Qual preço deixa margem e ainda é bem menor que o serviço feito por pessoas hoje? É essa diferença que convence o cliente a trocar.
  5. O que acontece quando falha, e quem paga? Defina isso antes de vender.

Um bom primeiro passo é medir: registrar os eventos que contam como resultado no seu produto, mesmo que você ainda cobre por assinatura. Esses números mostram se faz sentido migrar, e para qual preço.

Conclusão

O SaaS não vai desaparecer, e muitos produtos continuam fazendo sentido como ferramenta. O que o OaaS muda é a pergunta que o empreendedor se faz: em vez de “qual ferramenta eu vendo?”, passa a ser “qual resultado eu entrego e consigo provar?”. Quem souber responder a segunda pergunta, com custo sob controle e uma definição clara do que é sucesso, tem uma vantagem real nos próximos anos.

Fontes e referências

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